Em qual Concílio anterior a TRENTO em 1545 a Igreja Católica definiu o ATUAL CÂNON BÍBLICO ?



O Cânone Bíblico designa o inventário ou lista de escritos ou livros considerados pela Igreja Católica e aceita pelas demais Igrejas Cristãs, como tendo evidências de Inspiração Divina.
Cânone, em hebraico é qenéh e no grego kanóni, têm o significado de “régua” ou “cana [de medir]”, no sentido de um catálogo.
A formação do cânone bíblico tanto do ANTIGO como NOVO TESTAMENTO se deu gradualmente:
Foi formado num período aproximado de 1 500 anos. Os cristãos protestantes acreditam que o último livro do Antigo Testamento foi escrito pelo profeta Malaquias. Para os católicos e ortodoxos foi o Eclesiástico ou Sabedoria de Sirácida.
O profeta Moisés começou a escrever os primeiros cinco livros canónicos (ou Pentateuco) cerca de 1491 a.C
De acordo com a Bíblia, Deus mandou que se escrevesse o registo da Batalha de Refidim.(Êxodo 17:14). Depois vieram os Dez Mandamentos (34:1,27,28).
Recapitulação dos acontecimentos é feita em Deuteronómio9:9-17 10:1-5. São também referidos escritos ou livros anteriores como consultados, para além da tradição oral transmitida de geração em geração.

Segundo a literatura judaica, Esdras, na qualidade de escriba e sacerdote, presidiu um conselho formado por 120 membros chamado Grande Sinagoga que teria selecionado e preservado os rolos sagrados.
Alguns acreditam que naquele tempo o Cânone das Escrituras do Antigo Testamento foi fixado (Esdras 7:10,14). Entretanto esta tese é desacreditada pela crítica moderna.
Os estudiosos concordam que foi essa mesma entidade que reorganizou a vida religiosa nacional dos repatriados e, mais tarde, deu origem ao Supremo Tribunal Judaico, denominado Sinédrio.
Curiosamente os Saduceus e os Samaritanos só aceitavam como canônicos os cinco livros de Moisés.
Por esta razão, os especialistas especulam que Esdras tenha reunido apenas o Pentateuco, isto é, os cinco livros de Moisés.
Antes mesmo de Deus ter ordenado a Moisés que escrevesse, pela primeira vez, um memorial a respeito da vitória de seu povo sobre os amalequitas, a Palavra de Deus já circulava entre os homens sob o método da transmissão oral:
“Escuta-me, mostrar-te-ei; e o que tenho visto te contarei; o que os sábios anunciaram, ouvindo-o de seus pais, e o não ocultaram …”. (Jó 15:17,18)
Os Evangelhos registraram várias citações de Jesus do Antigo Testamento, comentando sobre o Gênesis, Deuteronômio, Números, I Samuel, Salmos, Malaquias, Daniel, reconhecendo-os como a Palavra de Deus (Mateus 12:3; 19:4; 22:37-40).
Para se conferir a confiança que os escritores do Novo Testamento tinham do Antigo, basta conferir as centenas de citações da Lei, dos profetas e outros escritos.
Acredita-se que começando por Moisés, à proporção que os livros iam sendo escritos, eram postos no Tabernáculo, junto ao grupo de livros sagrados.
Especula-se que tivesse sido Esdras quem reuniu os diversos livros e os catalogou, desse modo estabelecendo a coleção de livros inspirados por Deus. Desses originais, os copistas ou escribas fizeram cópias para uso das sinagogas largamente disseminadas. Porém a crítica não aceita a tese de que livros posteriores ao tempo do profeta figuram na Bíblia Hebraica, como é o caso do Livro de Daniel. Segundo especialistas, isso explicaria porque o Livro de Daniel não figura entre os escritos proféticos, mas nos hagiógrafos.
O prólogo da versão grega do Eclesiástico, datado em 130 a.C parece já confirmar a suspeita dos estudiosos modernos.
Com efeito nele lemos: “Pela Lei, pelos Profetas e por outros escritores que os sucederam, recebemos inúmeros ensinamentos importantes (…) Foi assim que após entregar-se particularmente ao estudo atento da Lei, dos Profetas e dos outros Escritos, transmitidos por nossos antepassados […]”.
Nota-se que o cânon indicado neste escrito considera canônicos livros posteriores ao tempo dos profetas.
As descobertas do Mar Morto e Massada mostram que entre os antigos judeus ainda não havia um cânon bíblico fixo ou instituído, que só veio depois do século I a criar corpo, e mesmo assim com muitas divergências.
Alguns dizem que o Cânone Hebraico de 39 livros, só foi realmente fixado no Concílio de Jâmnia em 100, embora nesse mesmo concílio livros como o de Ester, Daniel, Cântico dos Cânticos, ficaram de fora do cânon, que só veio a ser fixado mesmo no século IV.
Estudiosos como Leonard Rost garantem que tais decisões demoraram muito para serem aceitas e até hoje não tiveram aceitação em muitas comunidades judaicas; como o caso dos judeus do Egito, quem tem um cânon semelhante ao Católico e Ortodoxo.
O Concílio de Jâmnia rejeitou todos os livros e demais escritos e considerando-os como apócrifos, ou seja, não tendo evidências de inspiração por Deus e fonte de fé, tanto quanto da verdadeira autoria.
Houve muitos debates acerca da aprovação de certos livros, como Ester e Cântico dos Cânticos, conforme registro da Mishná.
A tese de que o trabalho desse Concílio foi apenas ratificar aquilo que já era aceito pela grande maioria dos judeus através dos séculos, carece de fundamento científico e é rejeitada pela majoritariamente pelos especialistas.
Até os primeiros quatro séculos, na igreja antiga, não havia um parecer oficial sobre o Cânon do AT:
As opiniões eram muito diversas.Pais da Igreja como Melito, Cipriano e Rufino de Aquileia postulavam pelo Cânon Hebraico (com 39 livros, excluindo os deuterocanônicos).
Já Ireneu, São Justino e Santo Agostinho defendiam o Cânon Alexandrino (com 46 livros, incluindo os Deuterocanônicos).
Jerônimo começou negando a canonicidade dos Deuterocanônicos, embora os tenha incluindo em sua Vulgata. Escritos seus posteriores mostram que esta sua posição inicial foi revista, é o que se verifica em sua Carta a Rufino e outra a Paulino, Bispo de Nola.
No final do século IV, Concílios Ecumênicos reafirmaram o Cânon Alexandrino.
1)- É o caso dos Concílios de Roma (382 d.C, dando origem ao Cânon Damaseno), Hipona I (cânon 36, 393 d.C),
2)- Cartago III (cânon 47, 397 d.C),
3)- Cartago IV (cânon 24, 417 d.C)
4)- e Trullo (cânon 2, 692).
5)- Concílio de Hipona

O Concílio de Hipona, também conhecido como Sínodo de Hipona Regia, foi um concílio regional africano da Igreja Católica, realizado em 393, no qual foi estabelecido o Cânon bíblico.
Santo Agostinho, líder do Concílio – Hipona (hoje Annaba) foi uma antiga cidade situada onde hoje se encontra o território da Argélia. No outono de 393, os bispos do Norte da África foram convocados à sede do episcopado, sob a liderança do bispo local, Valério, do Primaz de Cartago, Aurélio, e do então presbítero Agostinho, que assumiria o bispado três anos depois.
Visando reconquistar a unidade da Igreja – que aconteceria posteriormente graças ao carisma apologético de Agostinho1 – Santo Aurélio de Cartago cordialmente estendeu o convite e acolheu também aos bispos donatistas2 que, por estarem vinculados ao Antipapa Ursino, incorriam em cisma. O fato é que mais da metade dos bispos dessa região pertencia ao movimento donatista3 .
O Papa Sirício, embora diligente na administração da Igreja, não participou deste sínodo regional. No entanto, as deliberações finais foram expressamente submetidas a ele, nestes termos: «Ad confirmationem huius canonis, Ecclesia trans mare consultatur» («Sobre a confirmação deste cânon, se consultará a Igreja do outro lado do mar», ou seja, Roma).
Sob seu pontificado e ainda sobre a confirmação da lista dos livros inspirados, foram realizados outros dois sínodos regionais, um em 394 e outro em 397. O Papa Sirício, por sua vez, deu particular atenção à observância do cânon pelo clero e pelo laicato.
As questões doutrinárias
O Concílio discutiu e reafirmou a origem apostólica do celibato clerical4 , definindo-o como um requisito para todos os ordenados.
No entanto, os bispos foram convocados sobretudo a fim de discutir e deliberar sobre a lista oficial dos livros que deveriam ser considerados como de divina inspiração e que, portanto, deveriam compor a Bíblia e ser proclamados no culto nas comunidades.
A motivação nascia das dúvidas geradas no Século III sobre o emprego, pelos cristãos, dos livros assim chamados deuterocanônicos. As causas originavam-se das discussões com os judeus que, depois do Concílio de Jamnia – sínodo judaico realizado no início do Século II que, entre outras coisas, estabeleceu um cânon próprio – rejeitavam a canonicidade destes livros e de trechos de Ester, Cântico dos Cânticos e Daniel.
Alguns Padres da Igreja, por sua vez, também relataram tais questionamentos em seus escritos, como, por exemplo, Atanásio de Alexandria (373), Cirilo de Jerusalém (386), e Gregório de Nazianzo (389); ao passo que outros mantiveram-nos como inspirados, como, por exemplo, Basílio de Cesareia (379), Agostinho de Hipona (430), Jerônimo de Estridão (420) e Leão I (461).
As discussões do Concílio se concentraram, todavia, sobre uma lista que já havia sido proposta no Sínodo de Laodiceia, em 363, e pelo Papa Dâmaso I, em 382.
O Summarium do Concílio
Ainda que os originais do documento conciliar tenham se perdido, seu Summarium foi transcrito e devidamente aprovado no Concílio de Cartago, nestes termos:
“Cânon XXXVI: Além das Escrituras Canônicas, nada deve ser lido sobre o título de Divinas Escrituras. E as Escrituras Canônicas são:
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, os quatro Livros dos Reis, os dois Livros do Paralipômenos, Jó, o Saltério de Davi, os cinco Livros de Salomão (Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Sirácida), os doze Livros dos Profetas (menores: Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias), Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, os dois Livros de Esdras (Neemias e Esdras) e dois Livros dos Macabeus.
E do Novo Testamento:
quatro Livros dos Evangelhos, um Atos dos Apóstolos, treze Epístolas de Paulo, uma do mesmo aos Hebreus, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João.
Sobre a confirmação deste cânon se consultará a Igreja do outro lado do mar. A leitura da Paixão dos Mártires será permitida na celebração de seus respectivos aniversários.      ”
Hipona, 8 de outubro de 393,
A Vulgata, versão latina da Bíblia, composta à época do Concílio por São Jerônimo, a partir da Septuaginta.

A Bíblia cristã, portanto, possuía 71 livros (ou 73, se, ao contrário da Septuaginta, contarmos Jeremias, Lamentações e Baruc distintamente): 44 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. O Cânon definido pelo Concílio de Hipona é adotado pela Igreja Católica também atualmente5 .
A Igreja Ortodoxa o aceita6 , acrescentando-lhe outros textos, como III Macabeus, IV Macabeus, Odes de Salomão, Prece de Manassés, Saltério de Salomão, além do Salmo 151: prática também adotada pela Igreja Anglicana, não obstante rejeitar o Salmo 151.


Mesmo que Martim Lutero tenha traduzido e publicado na sua célebre versão alemã da Bíblia todos os livros cânon hipônico7 , os Protestantes adotam as decisões deste Concílio apenas no que tange à definição do Cânon para o Novo Testamento, excluindo os deuterocanônicos, considerados por eles como apócrifos no Antigo Testamento, conforme os judeus a partir do Concílio de Jamnia.
Seja como for, o Cânon estabelecido por este sínodo foi posteriormente confirmado pelo III Concílio de Cartago8 , em 397, e reafirmado em 1441 pela resolução Decretum pro Iacobitis9 , do Concílio de Florença e, finalmente, em 1546, por meio do decreto De Canonicis Scripturis10 , do Concílio de Trento.
6)- Um documento conhecido como Decreto Gelasiano (496 d.C) também opta pelo Cânon Alexandrino.
As Igreja Orientais também fizeram sua opção pelo Cânon Alexandrino, adotando a Septuaginta como a versão oficial do AT.
Desta forma, depois do século IV, o Cânon Alexandrino havia obtido aceitação ampla em toda Igreja: no Ocidente com as versões daVetus Latina e a Vulgata. e no Oriente com a Septuaginta.
Novas controvérsias sobre o Cânon do AT:
No início do século XV, um grupo dissidente da Igreja Copta (de crença monofisista), conhecidos como “jacobitas”, questionou o Cânon Alexandrino entre outras coisas.
Em 1441, O Concílio Ecumênico de Florença, através da Bula Cantate Domino (4 de fevereiro de 1442) reafirma o caráter canônico do Cânon Alexandrino.
Com a Reforma Protestante, Lutero volta a questionar o caráter canônico dos Deuterocanônicos do Antigo e trechos e livros Novo Testamento como a carta de Tiago – II Pedro – II João – III João – Judas – Apocalipse de João, negando inclusive seu caráter eclesiástico, pois para ele estes livros eram contrários à Fé.
Em 1545, é convocado o Concílio de Trento, que novamente reafirma o caráter canônico do Cânon Alexandrino.
No início não houve consenso entre os Protestantes sobre o Cânon do AT e do NT. O rei Jaime I da Inglaterra, responsável pela famosa tradução KJV (King James Version), defendia que os Deuterocanônicos deveriam continuar constando nas Bíblias Protestantes.
Logo depois a Igreja Ortodoxa Russa resolve deixar como facultativa a aceitação ou não do Cânon Alexandrino.
Cânone do Novo Testamento
Segundo a Fé Cristã, Jesus foi o redentor de quem o Antigo Testamento deu testemunho. Neste contexto, suas palavras não podiam ter menos autoridade do que a Lei e os Profetas.
Convencidos disto, os cristãos as repetiam sempre. Em momentos oportunos os Apóstolos e os Evangelistas colocaram parte dela na forma escrita, o que se tornou o núcleo do cânone definido pela Igreja nos primeiros séculos.
Segundo o historiador da Igreja Primitiva, o Bispo Eusébio de Cesareia (século IV), os apóstolos e os evangelistas nunca tiveram em mente deixar qualquer coisa por escrito (note que a grande maioria dos apóstolos nada escreveu), quando o fizeram foram forçados por situações especiais, como a impossibilidade de se encontrar com alguma comunidade, por exemplo1 .
Como no Antigo Testamento, homens inspirados por Deus escreveram aos poucos os livros que compõem o Cânone do Novo Testamento.
No ano 100, todos os 27 livros canônicos do Novo Testamento estavam escritos, porém não havia ainda uma lista autorizada de livros para o NT. Assim como o cânon do AT, o cânon do NT levou muitos séculos para ser fixado.
Em nenhum escrito do NT consta uma lista autorizada dos livros que devem ser considerados sagrados. Somente em II Pedro 3:15-16, o Apóstolo Pedro confessa que os escritos do Apóstolo Paulo são Escrituras Sagradas, mas não os relaciona e nem relacionada quais seriam os outros livros da Escritura.
A Referência mais antiga que se tem sobre o Cânon do NT se encontra em um manuscrito descoberto pelo sacerdote italiano Ludovico Antonio Muratori no século XVIII, datado do século II.
Por causa do nome de seu descobridor, este documento ficou conhecido como Cânon de Muratori.
Neste escrito estão relacinados os 4 Evangelhos, as cartas paulinas , a Epístola de Judas e I e II João e oApocalipse. Não são relacionadas as epístolas aos Hebreus, de Tiago e nem I e II Pedro.
Muitas controvérias existiram para se reconhecer o caráter canônico de livros como Hebreus, Tiago, Judas, Apolocalipse, II e III João e II Pedro. Por esta razão alguns estudiosos os chamam de Deuterocanônicos do NT.
Da mesma forma, outros livros já estiveram no cânon NT, porém depois foram rejeitados. É o caso da Primeira Carta de Clemente aos Coríntios (século I) e o Pastor de Hermas (século II). São os chamados antilegomena.
A lista completa dos livros do NT conforme existe hoje aparece pela primeira vez na Epístola 39 de Santo Atanásio de Alexandria para a Páscoa de 367 d.C.
Esta mesma lista foi confirmada por documentos posteriores como o Decreto Gelasiano, e os cânones dos concílios de Hipona,Cartago III e IV.
A definição oficial dos livros do Novo Testamento, realizado pela Igreja Católica, no século IV quando São Jerônimo realizou a compilação completa da bíblia, acabou com os questionamentos sobre a canonicidade dos livros Deuterocanônicos do Novo Testamento, questão esta que só reapareceria com o surgimento da Reforma Protestante, onde através do Concílio de Trento, no 1º Período (1545-48), a Igreja se viu obrigada a reafirmar através de decretos, o cânon sagrado do Novo Testamento também com os 27 livros que temos hoje.
Durante a Reforma Protestante, Martinho Lutero demonstrou dúvida quanto à autoria e canonicidade de alguns livros do Novo Testamento:
Hebreus, Tiago, Judas e o Apocalipse. No entanto sem maiores evidências da não autenticidade da mensagem, ao traduzir o Novo Testamento para o alemão em 1522, Lutero traduziu esses livros perfazendo ao todo 27 livros que temos hoje.
Bibliografia
LIMA, Alessandro. O Cânon Bíblico – A Origem da Lista dos Livros Sagrados. São José dos Campos-SP: Editora COMDEUS, 2007.
•           PASQUERO, Fedele. O Mundo da Bíblia, Autores Vários. São Paulo: Paulinas, 1986.
•           ROST, Leonard. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudo-Epígrafos do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1980.
•           SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. Antigo Testamento Poliglota, hebraico, grego, português, inglês. São Paulo: Vida Nova, 2003.
Flaviano Amatulli Valente.”Diálogo con los Protestantes”. Navarrete. Apóstoles de la Palabra. 1983
Manuel de Tuya, José Salguero. “Introducción a la Biblia”, Tomo I Biblioteca de Autores Cristianos Madrid, 1967
Bob Stanley. “El Canon de la Escritura” Jl 12, 1999
(em inglês) New Advent Catholic Encyclopedia – African Synods
(em inglês) Schaff – The Code of Canons of the African Church A.D. 419
Referências:
Jump up ↑ (em inglês) Cross, F. L., ed. The Oxford dictionary of the Christian church. New York: Oxford University Press, 2005
Jump up ↑ (em italiano) Santi e Beati – Sant’ Aurelio di Cartagine, Vescovo
Jump up ↑ Bengt Hägglund. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia, 1995
Jump up ↑ (em italiano) Franca Ela Consolino. L’Adorabile Vescovo d’Ippona. Calábria: Rubbettino, 2001.
Jump up ↑ Bíblia Católica – Tradução da CNBB
Jump up ↑ A Bíblia Ortodoxa
Jump up ↑ (em inglês) New World Enciclopedia – “Apocrypha”
Jump up ↑ Denzinger 186 na nova numeração, 92 na antiga.
Jump up ↑ (em latim) Concilium Florentinum, Decretum pro Iacobitis: DH 1330-1331
Jump up ↑ (em latim) Concilium Tridentinum, Decretum de Canonicis Scripturis: Appendix

Fonte: Wikipedia

Bento XVI escreve Carta ao matemático ateu: ”Caro Odifreddi, vou lhe contar quem foi o Jesus histórico…"



“Ilustríssimo Senhor Professor, a minha crítica ao seu livro, em parte, é dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; só assim o conhecimento pode crescer. O senhor foi muito franco e, assim, aceitará que eu também o seja.”
O papa emérito Bento XVIescreve uma carta ao matemático ateu italiano Piergiorgio Odifreddi sobre a fé, a ciência, o mal. Um diálogo à distância sobre o livro Caro papa, ti scrivo, de autoria de Odifreddi.
O cientista, por sua vez, relatou emoção e surpresa ao receber em sua casa a “inesperada carta” do ex-pontífice.
A carta foi publicada no jornal La Repubblica, 24-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto:
A íntegra da carta será publicada no próximo livro do matemático italiano. O jornal italiano publica uma parte da carta que pode ser lida a seguir.

Eis o texto:
“Ilustríssimo Senhor Professor Odifreddi, (…) gostaria de lhe agradecer por ter tentado até o último detalhe se confrontar com o meu livro e, assim, com a minha fé; é exatamente isso, em grande parte, que eu havia intencionado com o meu discurso à Cúria Romana por ocasião do Natal de 2009. Devo agradecer também pelo modo leal como tratou o meu texto, buscando sinceramente prestar-lhe justiça.
O meu julgamento acerca do seu livro, no seu conjunto, porém, é em si mesmo bastante contrastante. Eu li algumas partes dele com prazer e proveito. Em outras partes, ao invés, me admirei com uma certa agressividade e com a imprudência da argumentação. (…)
Várias vezes, o senhor me aponta que a teologia seria ficção científica. A esse respeito, eu me admiro que o senhor, no entanto, considere o meu livro digno de uma discussão tão detalhada.
Permita-me propor quatro pontos a respeito de tal questão:
1. É correto afirmar que “ciência”, no sentido mais estrito da palavra, só a matemática o é, enquanto eu aprendi com o senhor que, mesmo aqui, seria preciso distinguir ainda entre a aritmética e a geometria. Em todas as matérias específicas, a cientificidade, a cada vez, tem a sua própria forma, segundo a particularidade do seu objeto. O essencial é que ela aplique um método verificável, exclua a arbitrariedade e garanta a racionalidade nas respectivas modalidades diferentes.

2. O senhor deveria ao menos reconhecer que, no âmbito histórico e no do pensamento filosófico, a teologia produziu resultados duradouros.
3. Uma função importante da teologia é a de manter a religião ligada à razão, e a razão, à religião. Ambas as funções são de essencial importância para a humanidade. No meu diálogo com Habermas, mostrei que existem patologias da religião e – não menos perigosas – patologias da razão. Ambas precisam uma da outra, e mantê-las continuamente conectadas é uma importante tarefa da teologia.
4. A ficção científica existe, por outro lado, no âmbito de muitas ciências. Eu designaria o que o senhor expõe sobre as teorias acerca do início e do fim do mundo em Heisenberg, Schrödinger, etc., como ficção científica no bom sentido: são visões e antecipações para chegar a um verdadeiro conhecimento, mas são, justamente, apenas imaginações com as quais tentamos nos aproximar da realidade. Além disso, existe a ficção científica em grande estilo, exatamente dentro da teoria da evolução também. O gene egoísta de Richard Dawkins é um exemplo clássico de ficção científica. O grande Jacques Monod escreveu frases que ele mesmo deve ter inserido na sua obra seguramente apenas como ficção científica. Cito: “O surgimento dos vertebrados tetrápodes (…) justamente tem sua origem do fato de que um peixe primitivo ‘escolheu’ ir a explorar a terra, sobre a qual, porém, ele era incapaz de se deslocar, exceto saltitando desajeitadamente e criando, assim, como consequência de uma modificação do comportamento, a pressão seletiva graças à qual se desenvolveriam os membros robustos dos tetrápodes. Entre os descendentes desse audaz explorador, desse Magellan da evolução, alguns podem correr a uma velocidade de 70 quilômetros por hora…” (citado segundo a edição italiana de Il caso e la necessità, Milão, 2001, p. 117ss.).
Em todas as temáticas discutidas até agora, trata-se de um diálogo sério, para o qual eu – como já disse repetidamente – sou grato. As coisas são diferentes no capítulo sobre o sacerdote e a moral católica, e ainda diferentes nos capítulos sobre Jesus. Quanto ao que o senhor diz sobre o abuso moral de menores por parte de sacerdotes, eu só posso reconhecer – como o senhor sabe – com profunda consternação. Eu nunca tentei mascarar essas coisas. O fato de que o poder do mal penetra a tal ponto no mundo interior da fé é para nós um sofrimento que, por um lado, devemos suportar, enquanto, por outro, devemos, ao mesmo tempo, fazer todo o possível para que casos desse tipo não se repitam. Também não é motivo de conforto saber que, segundo as pesquisas dos sociólogos, a porcentagem dos sacerdotes réus desses crimes não é mais alta do que a presente em outras categorias profissionais semelhantes. Em todo caso, não se deveria apresentar ostensivamente esse desvio como se se tratasse de uma imundície específica do catolicismo.
Se não é lícito calar sobre o mal na Igreja, também não se deve silenciar, porém, sobre o grande rastro luminoso de bondade e de pureza, que a fé cristã traçou ao longo dos séculos. É preciso lembrar as figuras grandes e puras que a fé produziu – de Bento de Núrsia e a sua irmã Escolástica, Francisco e Clara de Assis, Teresa de Ávilae João da Cruz, aos grandes santos da caridade como Vicente de Paulo e Camilo de Lellis, até a Madre Teresa de Calcutá e as grandes e nobres figuras da Turim do século XIX. Também é verdade hoje que a fé leva muitas pessoas ao amor desinteressado, ao serviço pelos outros, à sinceridade e à justiça. (…)
O que o senhor diz sobre a figura de Jesus não é digno do seu nível científico.
Se o senhor põe a questão como se, no fundo, não soubesse nada de Jesus e como se d’Ele, como figura histórica, nada fosse verificável, então eu só posso lhe convidar de modo decidido a tornar-se um pouco mais competente do ponto de vista histórico. Recomendo-lhe, para isso, sobretudo os quatro volumes que Martin Hengel (exegeta da Faculdade de Teologia Protestante de Tübingen) publicou juntamente com Maria Schwemer: é um exemplo excelente de precisão histórica e de amplíssima informação histórica. Diante disso, o que o senhor diz sobre Jesus é um falar imprudente que não deveria repetir. O fato de que na exegese também foram escritas muitas coisas de escassa seriedade é, infelizmente, um fato indiscutível. O seminário norte-americano sobre Jesus que o senhor cita nas páginas 105ss. só confirma mais uma vez o que Albert Schweitzer havia notado a respeito da Leben-Jesu-Forschung (Pesquisa sobre a vida de Jesus), isto é, que o chamado “Jesus histórico” é, em grande parte, o espelho das ideias dos autores. Tais formas mal sucedidas de trabalho histórico, porém, não comprometem, de fato, a importância da pesquisa histórica séria, que nos levou a conhecimentos verdadeiros e seguros sobre o anúncio e a figura de Jesus.
(…) Além disso, devo rejeitar com força a sua afirmação (p. 126) segundo a qual eu teria apresentado a exegese histórico-crítica como um instrumento do anticristo. Tratando o relato das tentações de Jesus, apenas retomei a tese de Soloviev, segundo a qual a exegese histórico-crítica também pode ser usada pelo anticristo – o que é um fato incontestável. Ao mesmo tempo, porém, sempre – e em particular no prefácio ao primeiro volume do meu livro sobre Jesus de Nazaré – eu esclareci de modo evidente que a exegese histórico-crítica é necessária para uma fé que não propõe mitos com imagens históricas, mas reivindica uma historicidade verdadeira e, por isso, deve apresentar a realidade histórica das suas afirmações de modo científico também. Por isso, também não é correto que o senhor diga que eu estaria interessado somente na meta-história: muito pelo contrário, todos os meus esforços têm o objetivo de mostrar que o Jesus descrito nos Evangelhos também é o Jesus histórico real; que se trata de história realmente ocorrida. (…)
Com o 19º capítulo do seu livro, voltamos aos aspectos positivos do seu diálogo com o meu pensamento:
(…) Mesmo que a sua interpretação de João 1, 1 seja muito distante da que o evangelista pretendia dizer, existe, no entanto, uma convergência que é importante. Se o senhor, porém, quer substituir Deus por “A Natureza”, resta a questão: quem ou o que é essa natureza. Em nenhum lugar, o senhor a define e, assim, ela parece ser uma divindade irracional que não explica nada. Mas eu gostaria, acima de tudo, de fazer notar ainda que, na sua religião da matemática, três temas fundamentais da existência humana continuam não considerados: a liberdade, o amor e o mal. Admiro-me que o senhor, com uma única referência, liquide a liberdade que, contudo, foi e é o valor fundamental da época moderna. O amor, no seu livro, não aparece, e também não há nenhuma informação sobre o mal. Independentemente do que a neurobiologia diga ou não diga sobre a liberdade, no drama real da nossa história ela está presente como realidade determinante e deve ser levada em consideração.
Mas a sua religião matemática não conhece nenhuma informação sobre o mal. Uma religião que ignore essas questões fundamentais permanece vazia.

Ilustríssimo Senhor Professor, a minha crítica ao seu livro, em parte, é dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; só assim o conhecimento pode crescer.
O senhor foi muito franco e, assim, aceitará que eu também o seja. Em todo caso, porém, avalio muito positivamente o fato de que o senhor, através do seu contínuo confronto com a minha Introdução ao cristianismo, tenha buscado um diálogo tão aberto com a fé da Igreja Católica e que, apesar de todos os contrastes, no âmbito central, não faltem totalmente as convergências.
Com cordiais saudações e com todos os melhores votos para o seu trabalho”

O Papa fala que a coisa mais importante neste tempo da Igreja é curar as feridas – Entrevista a Dom João Carlos Petrini, presidente da Comissão Episcopal Pastoral da Vida e Família da CNBB


Por Thácio Lincon Soares de Siqueira – Zenit
Depois da entrevista concedida à revista dos jesuítas La Civiltá Cattolica, e publicada no dia 16 desse mês, ZENIT entrevistou o Presidente da Comissão Episcopal Pastoral da Vida e Família da CNBB, Dom João Carlos Petrini.
Dom Petrini, também bispo de Camaçari, compartilhou com os nossos leitores algumas das suas impressões a respeito de temas que o Pontífice vem repetindo desde que assumiu a Sede de Pedro.
Acompanhe a entrevista na íntegra:

1)- ZENIT: Como você interpreta os temas que a mídia veio polemizando e que o Papa tratou na sua recente entrevista à Civilta Cattolica? Por acaso, o Papa está falando que agora é certo o que antes era condenado como errado na Igreja?
Dom Petrini: O Papa Francisco apresenta de maneira nova a grande tradição da Igreja. Nesse sentido, O Papa recorda aos membros da Igreja e aos homens e às mulheres que buscam caminhos de luz e de paz na vida pessoal e social que existe Algo que vem antes de qualquer julgamento moral, antes de dizer se uma atitude é certa ou errada.
O que vem antes é o olhar de Jesus Cristo, pronto para acolher e perdoar, se apenas encontra uma abertura do coração. Um exemplo disso é o olhar de misericórdia sobre Zaqueu, que era o chefe da máfia da época, mas procurava ver Jesus. E Jesus não se apressou a condena-lo pelas suas atitudes reprováveis. Antes, lhe disse: “Desce depressa porque hoje quero ir à tua casa”. E Zaqueu, depois do encontro com Jesus começou a mudar de vida, como o próprio evangelho comenta. (Lucas, 19, 1-10).
O Papa fala que a coisa mais importante é “curar as feridas e aquecer os corações dos fieis, a proximidade”.

Esta atitude corresponde ao modo como Jesus se comportava. Por isso, havia fariseus que reclamavam porque ele frequentava a casa dos pecadores e tomava as refeições com eles!
Esta atitude que acolhe, ampara, derrama óleo sobre as feridas, como fez o bom samaritano quando viu um homem caído na beira da estrada, é o que vem antes de qualquer juízo moral. Na medida em que a pessoa, tocada dessa maneira por Jesus Cristo, se dá conta do que está acontecendo, se liga e procura corresponder ao afeto que a abraça.
O Papa não quer substituir juízos negativos sobre certas atitudes com juízos positivos, não quer dizer agora que está certo o que a Igreja, há séculos, vem dizendo que está errado. Ele chama a nossa atenção sobre uma postura parecida com a atitude de Jesus para enfrentar os dramas humanos: antes acolher e amar, deter-se naquilo que vem antes de qualquer juízo: antes vem Jesus, seu olhar de misericórdia, sua ternura que acolhe e procura curar as feridas.  
2)- ZENIT: Como é possível isso?
Dom Petrini: O que mais o Papa pede aos membros da Igreja é que encontrem as pessoas com o mesmo coração e com o mesmo olhar com o qual Jesus encontrava as pessoas do seu tempo. Ele acolhia sem restrições a todos, inclusive aos piores pecadores. Somente condenava com dureza os hipócritas, isto é, aqueles que encobriam com uma casca de falsidade, de pura aparência, suas atitudes reprováveis, procurando fazer passar por justiça o que era injusto. Mas, a quem se apresentava com simplicidade, com um coração pobre, isto é, sem nada a defender, Jesus dava o perdão e a possibilidade de uma vida nova. Por isso, Jesus é reconhecido como “o Salvador”, Aquele que pode salvar o homem e a mulher do nosso tempo da insensatez, do vazio, da solidão, do desespero.
3)-ZENIT: O sobre as mulheres?
Dom Petrini:      As mulheres tiveram uma participação muito relevante na história de Jesus, a começar por Maria que aceitou ser mãe do Filho de Deus. Mas muitas mulheres acompanhavam Jesus durante os anos de sua vida pública. E a história da Igreja está repleta de grandes mulheres que realizaram obras admiráveis, reformaram congregações, persuadiram Papas a tomarem atitudes mais corajosas. Até mesmo na Idade Media tão maltratada como idade de trevas, brilharam muitas mulheres como estrelas de primeira grandeza. O Papa Francisco, já na viagem de retorno do Rio de Janeiro a Roma, tinha se referido a elas recomendando que seja aprofundado o conhecimento dessa realidade e que se estude mais a teologia da mulher. Isto já é uma grande novidade que poderá abrir novas possibilidades de integração das mulheres na vida da Igreja. É bom ficarmos com as palavras do Papa, sem querer forçar para atribuir a ele outras intenções.
4)- ZENIT: Para o Papa o que é mais importante para a Igreja nesse momento?
Dom Petrini: O Papa fala do nosso mundo, tão desenvolvido com suas tecnologias sedutoras que resolvem muitos problemas do quotidiano é, ao mesmo tempo, um mundo de sofrimentos, de violências, de solidão. E o pior é que todos estão tão atarefados em correr atrás de suas fantasias de felicidade que os dramas humanos dos quais dificilmente alguém escapa, essas dores são ignoradas, essas solidões não são vistas. O mundo, diz o Papa, se parece com um hospital de campo depois de uma batalha. Depois da batalha de cada dia, muitos ambientes de vida são parecidos a um hospital de campo, cheios de feridos. O Papa, dirigindo-se aos católicos diz: não percam tempo a verificar o colesterol ou a glicose no sangue. O momento apresenta outra urgência: cuidar das feridas. Por isso, é importante – e ele deve ter repetido essa idéia uma dúzia de vezes – acolher, cuidar, acompanhar, mostrar nossa proximidade humana, sair de casa para ficar perto dessas pessoas que sofrem e anunciar-lhes que Alguém as ama, mais do que pai e mãe. Depois, não faltarão oportunidades para cuidar de outras questões.
 
Quero terminar repetindo algumas palavras dessa importante entrevista do Papa: 
“Os ministros do Evangelho devem ser pessoas capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com eles, de saber dialogar e também descer em sua noite, na sua escuridão, sem perder-se.”
Fonte: Zenit

A Teologia do "POVO" do Papa Francisco – Entrevista com Juan Carlos Scannone o Teólogo Jesuita do Papa Francisco

O padre Juan Carlos Scannone, jesuíta de 81 anos, ex-professor de diversas universidades latino-americanas e europeias, incluindo a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e ex-reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia da Universidad del Salvador, em Buenos Aires, é o maior teólogo argentino vivo.
(A reportagem é de Mauro Castagnaro, publicada na revista Il Regno, de maio de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto):
Eis a entrevista:
1)-O que o senhor pensa da ascensão do cardeal Bergoglio ao sólio de Pedro?
O fato de ele ser o primeiro papa “das Américas”, particularmente da América Latina, tem um grande valor simbólico, assim como a escolha do nome Francisco. Jorge Mario é uma pessoa simples, preocupada com os pobres, com a renovação evangélica da Igreja e com um apostolado “na cidade”, realizado também pelas ruas, e não só nos templos, como foi o de São Francisco de Assis.

Jorge Mario tem três grandes qualidades:
1ª)-ele é um homem de espiritualidade e, quando era meu provincial, eu tinha a impressão de que ele governava com base no discernimento espiritual, ao menos com relação a mim;
2ª)-é austero, tanto que em Buenos Aires ele se deslocava de metrô ou com os micro-ônibus e muitas vezes visitava as villas miserias, defendendo os padres que trabalhavam lá;
3ª)- é determinado, e por isso implementará as mudanças necessárias na Igreja, mas sem rupturas.
2)-O que o senhor pensa sobre a ação dele no caso do sequestro, durante a ditadura, do Pe. Orlando Yorio e do Pe. Ferencs Jalics?
O Pe. Jalics desmentiu qualquer ligação entre o Pe. Bergoglio e a prisão deles. Eu já sabia disso, porque eu era muito amigo do Pe. Yorio, com o qual às vezes eu colaborava no plano teológico, e como o Pe. Bergoglio vivia na mesma casa que eu, quando os fizeram desaparecer, ele me contava tudo o que ele fazia, assim como ao bispo vigário da região, Dom Mario Serra, para saber onde eles estavam e obter a sua libertação. Os militares negavam que os haviam preso, mas vazou a notícia de que eles haviam sido detidos na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), e quando eles se deram conta de que eram inocentes, eles os detiveram por vários meses, a meu ver porque não sabiam o que fazer. No fim, deixaram-nos adormecidos (provavelmente drogados) em um campo. Depois, com a ajuda do provincial, o Pe. Yorio e o Pe. Jalics se refugiaram no exterior para evitar um novo desaparecimento.
3)-O que Francisco irá fazer?
Eu espero que ele impulsione a nova evangelização a partir da opção preferencial pelos pobres, segundo a índole de cada cultura. Por isso, ele vai olhar muito para a África e vai estimular o apostolado com relação aos mais miseráveis, nas grandes periferias urbanas e no “quarto mundo”. Ele também irá promover o ecumenismo e colóquios em nível mundial com as outras religiões do mundo, em particular com o judaísmo e o islamismo, com base no que ele já fez na Argentina, onde há um diálogo a três entre essas religiões e o cristianismo. Além disso, imagino que ele tentará difundir o seu estilo de vida austero a toda a Igreja, que, assim, se adaptaria melhor à cultura contemporânea. Por fim, ele levará muito em conta o fato de que é bispo de Roma, certamente sem ignorar a Igreja universal, mas valorizando a colegialidade e o povo dos fiéis como um todo.
4)-Que consequências terá a sua eleição para a América Latina?
Francisco conhece bem a Igreja do continente. Ele foi relator na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Aparecida, no Brasil, em 2007, coordenando também a comissão encarregada de redigir o documento conclusivo, e por isso vai tentar encorajar a “conversão pastoral” da qual esse texto fala, principalmente colocando a Igreja latino-americana “em estado de missão” nas grandes cidades. Provavelmente, ele irá promover o diálogo com os sindicatos e as organizações populares para favorecer uma maior justiça social, além da busca de acordos sobre políticas públicas para o bem comum. Ele vai valorizar, por fim, a piedade e a espiritualidade populares, especialmente a devoção mariana típica da América Latina.
5)-Como o Papa Bergoglio irá olhar para a teologia latino-americana?
Jorge Mario está convencido da importância espiritual e pastoral de uma boa teologia à altura da cultura contemporânea e de cada cultura particular. Eu acredito que ele vai apoiar a opção preferencial pelos pobres como lugar hermenêutico para a reflexão teológica e pastoral latino-americana. Na Argentina, ele defendeu aquela que eu chamo de “linha argentina da teologia da libertação”, denominada por alguns como “teologia do povo”, e eu presumo que ele vai continuar a promovê-la, sem ignorar outras orientações teológicas.
6)-Quais são as características dessa “teologia do povo”?
Assim como a teologia da libertação, ela utilizar o método “ver-julgar-agir”, liga práxis histórica e reflexão teológica, e recorre à mediação das ciências sociais e humanas. Mas privilegia uma análise histórico-cultural em comparação com a sócio-estrutural de tipo marxista. É uma reflexão que surgiu no período pós-conciliar imediato, a partir de uma fonte dupla: o n. 53 da Gaudium et Spes, em que se fala da “cultura” como modo de vida de cada povo, lido na convicção de que a primeira evangelização havia contribuído muito para forjar a cultura argentina que se manifestava especialmente no catolicismo popular; as teorias da sociedade nascidas na Universidade de Buenos Aires nos anos 1960 e fundamentadas sobre as categorias de “povo” e de “antipovo”, que reconheciam a injustiça, mas enfatizando a unidade do povo em vez do conflito, como teria ocorrido se se usasse o conceito de “classe”.
Por isso, essa corrente sublinha a importância da cultura, da religiosidade e da mística popular, afirmando ao mesmo tempo que os seus intérpretes mais autênticos e fiéis são os pobres, com a sua espiritualidade tradicional e a sua sensibilidade pela justiça. Essa reflexão alimenta a pastoral dos bairros populares e das villas miserias.
7)- Qual é a situação da Igreja na Argentina hoje?
Nos últimos 15 anos, o episcopado manteve um diálogo crítico com o Executivo, embora uma minoria dos bispos tenha uma orientação mais conservadora. No plano social, todos reconhecem que a Igreja está muito à frente, tanto na assistência através da Cáritas, quanto na promoção humana, e às vezes ela se confronta com o governo, porque a situação dos pobres melhorou graças às ajudas estatais, mas faltam investimentos produtivos que criem postos de trabalho dignos.
Nos temas morais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, eu acredito que devam ser defendidas a lei natural e os direitos dos nascituros, mas dialogando mais com a sociedade civil…
“Quando Jorge Mario era meu aluno no seminário”: O teólogo Scannone fala sobre o Papa Francisco:
Enquanto conta sobre o pontífice, ele explica como o “Papa Francisco” já começou a reformar as coisas: “Graças aos muitos gestos simbólicos, a Igreja está se abrindo mais ao ser humano de hoje, sobretudo aos mais pobres e excluídos, saindo para as periferias”. Mas se lhe perguntamos sobre o passado, é natural para ele usar o nome de batismo, “quando Jorge Mario era meu estudantes em Buenos Aires…”.
(A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 24-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto)
O padre Juan Carlos Scannone, 81 anos, não é apenas o velho professor de grego e de literatura daquele menino que, depois do diploma, entrou no seminário de Villa Devoto, começando o seu noviciado na Companhia de Jesus. Menino sólido, dentre outras coisas: “Foi então que ele adoeceu gravemente de pneumonia e teve que ser operado em um pulmão. Eu lembro que ele suportou sua doença com muita força e integridade”.
Diretor do Instituto de Investigação Filosófica da Faculdade de Teologia e Filosofia de San Miguel, não muito longe da capital argentina.
O padre Scannone é principalmente o maior teólogo argentino, aluno de Karl Rahner – outro jesuíta, um dos gigantes do pensamento do século XX – e, diz-se, ponto de referência teológico do próprio papa.
Além disso, eles têm uma referência comum:
“Eu acredito que não é possível entender Francisco sem compreender a espiritualidade inaciana. Dentre muitas outras características, pode-se notar o seu apreço pelo discernimento espiritual de Santo Inácio”, ressalta. O “discernimento” é aquela capacidade de crivo interior para “sair do mal e buscar o bem” e, portanto, escolher livremente, que está no centro dos Exercícios Espirituais do fundador dos jesuítas e que Bergoglio, explica o padre Scannone, exerce “não somente na vida das pessoas, mas também na pastoral da Igreja”.
E depois há uma corrente de pensamento tipicamente argentina, a chamada “teologia do povo”. É preciso partir daí para entender o pontífice que quer “uma Igreja pobre e para os pobres” e denuncia a mentalidade para a qual “é uma tragédia se os bancos caem, mas se as famílias não têm nada para comer, então não se faz nada”.
Mas o que é a “teologia do povo” e o quanto ela tem a ver com a teologia da libertação?
“Muitos consideram a teologia argentina do povo como uma corrente da teologia da libertação com características próprias, assim como faz o próprio Gustavo Gutiérrez”, explica o padre Scannone, citando o fundador da teologia da libertação. “Eu mesmo já defendi em um artigo escrito em 1982 e retomado por Dom Quarracino”.
O padre Scannone lembra que, em 1984, o antecessor de Bergoglio em Buenos Aires “explicou por que a Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé falava no plural de ‘teologias’ da libertação: ele não criticava todas, criticava aquelas que usavam a análise marxista da sociedade e da história”.
A “teologia do povo” argentina, em suma, “não usa a análise social marxista, mas sim uma análise histórico-cultural, sem ignorar a sócio-estrutural”.
Também por isso “outros a distinguem da teologia da libertação”, em vez de considerá-la, como o padre Scannone, uma corrente “com suas características próprias”.
Em todo o caso, “todas as correntes assumem a opção preferencial pelos pobres das conferências do episcopado latino-americano de Medellín e de Puebla”,  a mesma opção “reiterada por Bento XVI no discurso inaugural de Aparecida e pela própria conferência”. Eis o ponto: “Coerente com essa opção é a crítica à especulação financeira e à absolutização neoliberal do mercado, como já disse João Paulo II na Centesimus Annus”.
A teologia do povo, em particular, “enfatiza o tema da evangelização das culturas, da inculturação do Evangelho e da piedade e espiritualidade populares, considerando que, na América Latina, esta – quando autêntica – é a encarnação da fé ‘na’ e ‘nas’ culturas latino-americanas e, portanto, tem um potencial evangelizador.Nada de ideologias ou sugestões marxistas, em suma, mas sim atenção e respeito às diversas culturas, ao povo e à sua fé: a “conversão pastoral” de uma Igreja que sai pelas ruas, rumo às “periferias”.
O padre Scannone também lembra como o cardeal Bergoglio “surpreendeu pela sua simplicidade: ele sabe dirigir o carro, mas, como arcebispo, renunciou ao motorista, viajava nos transportes públicos, de trem e de metrô…”.
No L’Osservatore Romano, ele havia contado que “também sabe cozinhar muito bem. Um dos seus pratos preferidos era o porco recheado. Ele o preparava aqui em San Miguel”. Um “homem da orquestra”, como se diz na Argentina, capaz de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.
“Uma vez, eu vi que ele estava escrevendo um artigo na máquina de escrever, depois foi lavar a roupa, depois recebeu uma pessoa para um aconselhamento espiritual. Um trabalho espiritual, um mecânico e um manual ao mesmo tempo e no mesmo nível de qualidade”.
Mas, padre, qual é a característica mais importante de Francisco como pessoa? “É difícil dizer uma em particular, mas eu gostaria de indicar uma que marcou um bispo amigo nosso. Ele me disse: é um homem que reza. Ele falava da sua grande profundidade espiritual”.
A Teologia do povo. Entrevista com Juan Carlos Scannone
A teologia da libertação na Argentina assume a forma peculiar de “Teología del pueblo”. Com uma ênfase particular na inculturação e na religiosidade popular.
(A reportagem é de Alessandro Armato, publicada no sítio MissiOnline, 01-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto)
Filósofo e teólogo próximo do ramo argentino da teologia da libertação, a chamada Teología del Pueblo, o padre Juan Carlos Scannone, jesuíta, é um personagem de destaque no panorama intelectual católico do Cone Sul. Discípulo de Karl Rahner, ele participou como protagonista da evolução do intenso debate pós-conciliar da América Latina. Professor universitário, é autor de inúmeros livros e artigos relevantes. Encontramo-lo no Colégio Máximo de San Miguel, onde vive, nos arredores de Buenos Aires.
1)-O que significa fazer teologia no e a partir do Cone Sul?
O aspecto fundamental é a inculturação. Como mensagem de salvação para todos, a teologia tem um significado universal. Mas, como reflexão sobre uma fé que se incultura, a teologia também deve se inculturar. Ora, o Cone Sul faz parte do mundo ocidental, mas apresenta uma miscigenação cultural com diversas variantes. Isso requer uma perspectiva teológica específica.
2)- Na Argentina, essa perspectiva específica é a Teología del Pueblo.
Para compreendê-la, é preciso partir do aparecimento da Teologia da Libertação, em torno da Conferência do Episcopado Latino-Americano de Medellín, em 1968. Essa teologia, que é uma das grandes contribuições da América Latina para a cultura universal, assume a forma específica, na Argentina, da “Teologia do Povo”. Trata-se de uma perspectiva própria, original, como reconhece o próprio Gustavo Gutiérrez, pai da Teologia da Libertação.
3)- Em que ela difere desta última?
A diferença é que aqui nunca foram utilizadas nem a metodologia marxista de análise da realidade, nem categorias tomadas do marxismo, talvez por influência do peronismo.
4)- No âmbito especificamente teológico, o que caracteriza essa perspectiva?
Uma revalorização da cultura e da religiosidade popular, tanto argentina quanto latino-americana. Daí o nome de Teologia do Povo (embora quem a chamou assim pela primeira vez foi um teólogo uruguaio que a criticava, Juan Luis Segundo). Fala-se do povo como sujeito histórico-cultural, e da religiosidade popular como uma forma inculturada de fé cristã católica no povo argentino e latino-americano. É uma linha que privilegia mais a análise histórico-cultural do que a sócio-estrutural.
5)- Quem deu corpo a essa teologia?
O grande teólogo é Lucio Gera, um imigrante italiano que chegou à Argentina quando criança. Gera era líder da Comissão Episcopal de Pastoral (Coepal), constituída pelos bispos argentinos no rescaldo do Concílio Vaticano II. A Teologia do Povo ganha forma nesse âmbito. Além de Gera, na Comissão estavam Justino O’Farrell, Gerardo Farrel, Rafael Tello, Alberto Sily, Fernando Boasso, Dom Enrique Angelelli, Dom Manuel Marengo e outros. Juntos elaboraram o famoso “Documento de San Miguel”, em 1969, um dos textos mais significativos e influentes da história da Igreja argentina, em que se fala, dentre outras coisas, da pastoral popular pensada não só para o povo, mas a partir do povo. A ideia de fundo é que o povo latino-americano já foi evangelizado e, portanto, apresenta muitos elementos que não são apenas “sementes”, mas “frutos” do Verbo.
6)-O que Roma pensava a respeito?
Roma criticou as várias formas de teologia da libertação que se referiam ao marxismo. A corrente argentina, que não apresentava sinais disso, era vista de forma positiva.
7)-E o que pensava a ditadura de Videla (1976-1983)?
Os militares, ao contrário, eram pouco sutis. Para eles, “libertação” e “opção pelos pobres” significavam automaticamente marxismo. Não distinguiam entre as diversas correntes. Eu mesmo, que nunca tive nada a ver com o marxismo, era considerado como tal. Até o futuro cardeal Pironio, do qual hoje está em andamento a causa de beatificação, era visto como marxista pela inteligência militar. Era pura ignorância.
8)- Quais foram os frutos da Teologia do Povo?
Um dos principais frutos foi a valorização da religiosidade popular, que deixou uma grande marca em toda a Igreja argentina. Eu penso na pastoral dos santuários. Para a festa de San Cayetano, padroeiro do pão e do trabalho, há pessoas que ficam na fila por até 15 dias para entrar primeiro no santuário. Mas eu também penso nas peregrinações juvenis a pé a Luján, idealizadas por Rafael Tello durante o regime militar, que mobilizam ainda hoje centenas de milhares de pessoas a cada ano. Essas manifestações religiosas sempre existiram. Mas o mais interessante dessa teologia é o fato de tê-la reconhecido como autêntica fé popular. Tanto que, ultimamente, como evidenciado pelo documento de Aparecida, fala-se oficialmente de espiritualidade e de mística populares. O próprio Bento XVI disse em Aparecida que a piedade popular é um dos grandes tesouros da América Latina. O tema ainda é muito atual.
9)- A ideia começou na Argentina?
No Concílio, não se falava a respeito. O primeiro que falou sobre isso em nível universal foi Paulo VI. Mas é muito provável, quase certo, que a revalorização começou na Argentina com o grupo da Coepal. Depois, vários bispos latino-americanos apresentaram essas ideias no Sínodo de 1974 sobre a evangelização. Daí, provavelmente através de Pironio, argentino amigo dos membros da Coepal, elas passaram para a exortação pós-sinodal Evangelii nuntiandi, de Paulo VI, e, depois, para a Conferência do Episcopado Latino-Americano de Puebla, que é a aplicação da Evangelii nuntiandi na América Latina, onde Lucio Gera figura entre os redatores do documento sobre a evangelização da cultura. É uma viagem de ida e volta entre a América Latina e Roma.
10)- Em Medellín já não se falava de religiosidade popular?
Falava-se a respeito como de uma religião natural, unicamente como “semente do Verbo”. Enquanto, para a Teologia do Povo argentina, trata-se de um autêntico catolicismo popular, “fruto” do Verbo. Como “sementes” são entendidas só as religiões aborígines ou afro-americanas.
A teologia da libertação de Francisco:
Às vésperas da viagem ao Brasil, a leitura do teólogo argentino Juan Carlos Scannone ajuda a entender as palavras de Bergoglio sobre o “povo dos fiéis”.A reportagem é de Gerolamo Fazzini, publicada no sítio MissiOnline, 17-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
1)- A poucos dias da visita do Papa Francisco ao Brasil, a pergunta é obrigatória: como já foi dito por muitos, o retorno de Bergoglio como pontífice à América Latina realmente o verá como protagonista da reconciliação entre Roma e a Teologia da Libertação ?
Uma “reaproximação” entre o papa e os teólogos latino-americanos foi desejado recentemente por Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito no Brasil, um dos rostos mais conhecidos do movimento. Algumas semanas atrás, Casaldáliga pediu que Adolfo Pérez Esquivel fosse o portador desse pedido junto ao papa, durante um encontro privado que o Prêmio Nobel da Paz argentino tinha obtido.
Na mesma ocasião foi entregue a Francisco uma cópia do “Pacto das Catacumbas”, um acordo firmado por 40 bispos presentes no Concílio Vaticano II, no dia 16 novembro de 1965. O signatários – que incluíam os representantes mais conhecidos da ala “progressista” (dentre outros, os bispos Hélder Câmara, Leonidas Proaño e Luigi Bettazzi) – se comprometiam nesse texto a levar uma vida austera, sem propriedades nem contas bancárias, sem títulos nem bens materiais.
Percorrendo a lista dos signatários, o papa comentou: “Nossa, veja quem está aqui!”. Pérez Esquivel disse: “Francisco se interessou, disse que iria ver. Nós nos comprometemos a fazer um trabalho para reunir esses pensadores, como Leonardo Boff, que contribuíram tanto com a Igreja”.
2)-Até aqui a reconstrução do site Vatican Insider. Neste ponto, a pergunta soa assim: haverá, no Brasil, a palavra do Papa Francisco sobre a Teologia da Libertação? E, em caso afirmativo, em que direção?
Para responder a essa questão nada fácil e para nos orientarmos sobre esse espinhoso assunto, é preciso voltar novamente às fontes. E a fonte se chama padre Juan Carlos Scannone. Não é um rosto conhecido fora do estreito círculo dos iniciados. Porém, esse professor jesuíta – filósofo e teólogo, 81 anos bem vividos – é o inspirador da “pastoral” do então cardeal Bergoglio e a sua principal referência teológica.
Uma confirmação disso é um livreto recém-lançado pela editora Marsilio, intitulado Ero Bergoglio, sono Francesco [Era Bergoglio, sou Francisco].
Nessa “primeira reportagem sobre o papa do fim do mundo” (como diz o subtítulo), o autor – o jovem jornalista Cristian Martini Grimaldi – reuniu uma série de textos escritos da Argentina pelo L’Osservatore Romano. Um dos capítulos mais interessantes é o dedicado justamente a Scannone, intitulado “O meu aluno Bergoglio”.
Nele, Scannone, diretor do Instituto de Pesquisa Filosófica da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel (a mesma da qual o futuro papa foi reitor, no período 1980-1986), a propósito da Teologia da Libertação e da posição do papa a respeito, oferece uma reflexão articulada, da qual relatamos as principais passagens. É preciso dizer que muitas das afirmações de Scannone ecoam as feitas em uma entrevista concedida pelo jesuíta a Alessandro Armato para a revista Mondo e Missione (novembro de 2011).
“Quando o então secretário do Celam, depois cardeal Quarracino, apresentou a primeira das instruções sobre a Teologia da Libertação (Libertatis Nuntius, 1984), ele explicou por que fala de teologias da libertação, no plural, e fez alusão a quatro correntes”, afirma Scannone. “Uma delas é a teologia argentina do povo, elaborada pela Coepal (Comissão Episcopal), liderada pelo teólogo Lucio Gera. Tanto os adversários quanto os detratores da Teologia da Libertação a consideram como uma corrente dela, embora outros, ao contrário, a diferenciam”.
Ele continua: “Ela [a teologia argentina do povo] se caracteriza por indicar o povo – entendido como uma nação unida por uma cultura, uma história e um projeto compartilhado comum – como sujeito da libertação da injustiça e da opressão. Portanto, não faz alusão à classe social na luta de classes. São as pessoas pobres e excluídas na América Latina as que melhor conservam a cultura comum (…). Grande importância é dada à evangelização dos povos e das culturas, e são consideradas a piedade popular e a espiritualidade latino-americana como produto da inculturação do Evangelho nas nossas culturas”.
Lendo esses esclarecimentos de Scannone, entende-se como neles podem “estar juntos” alguns elementos da biografia do Papa Francisco que os estreitos esquematismos eclesiais italianos não contemplam como compatíveis. Refiro-me à decisiva opção pelos pobres (“Eu sonho com uma Igreja pobre e para os pobres”), atitude considerada “de esquerda” e, por outro lado, a grande simpatia pela piedade popular, marcadamente a devoção mariana fortíssima nesse papa (neste caso, rotulado como “de direita”).
Uma coisa é certa: a Teologia da Libertação em molho argentino foge do marxismo. Scannone é claro:
“A teologia argentina do povo privilegia a análise histórico-cultural ao interpretar a situação histórica à luz da fé, em vez da análise sócio-estrutural, embora esta última não seja descartada, mas sem usar o método marxista”.
O professor jesuíta prossegue:
 “Na corrente argentina da Teologia da Libertação, unem-se intimamente a opção preferencial pelos pobres (Conferência de Puebla) e a evangelização da cultura, da qual também fazem parte as estruturas sociais, e um dos frutos na América Latina é o catolicismo popular”.
Bergoglio – conclui Scannone – não é um teólogo, mas sim um pastor:
“Eu acho que o seu ministério não pode ser plenamente compreendido sem primeiro entender esse contexto teológico argentino, porque daí vem a opção pelos pobres e pelos marginalizados, a apreciação da piedade popular e pastoral, o seu uso repetido da categoria de ‘povo dos fiéis’, em sintonia com o ‘povo de Deus’ da Lumen Gentium, mas interpretado através dos olhos latino-americanos e argentinos”.
Se for assim, não devemos excluir que, realmente, embora com todas as nuances do caso, se chegue a uma superação do “conflito” em curso entre teólogos da libertação e Roma. Não faltam sinais de um degelo.
Recentemente, o protagonista foi um personagem de primeiro plano como o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, atual prefeito do dicastério vaticano – a Congregação para a Doutrina da Fé – que, nos anos 1980, interveio com nada menos do que duas instruções para assinalar os desvios pastorais e doutrinais que incumbiam sobre os caminhos tomados pelas teologias latino-americanas:
“O movimento eclesial e teológico da América Latina, conhecido como ‘Teologia da Libertação’, que depois do Vaticano II encontrou um eco mundial, deve ser ser contado, a meu ver, entre as correntes mais significativas da teologia católica do século XX”.
Escreve Müller em um livro de próxima publicação:
Uma coletânea de artigos escritos a quatro mãos [com Gustavo Gutiérrez], já impresso na Alemanha em 2004, que será lançado na Itália com o título Dalla parte dei poveri. Teologia della liberazione, teologia della Chiesa (Do lado dos pobres. Teologia da Libertação, teologia da Igreja] (coeditado pelas Edizioni Messaggero Padova e Emi).

O que é a Escolástica e a Neoescolástica ?



Escolástica ou Escolasticismo (do latim scholasticus, e este por sua vez do grego σχολαστικός [que pertence à escola, instruído]) foi o método de pensamento crítico dominante no ensino nas universidades medievais europeias de cerca de 1100 a 1500.

Não tanto uma filosofia ou uma teologia, como um método de aprendizagem, a escolástica nasceu nas escolas monásticas cristãs1 , de modo a conciliar a fé cristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega2 .
Colocava uma forte ênfase na dialética para ampliar o conhecimento por inferência e resolver contradições.
A obra-prima de Tomás de Aquino, Summa Theologica, é frequentemente vista como exemplo maior da escolástica.
I – O pensamento escolástico:
A escolástica surgiu da necessidade de responder às exigências da fé, ensinada pela Igreja, considerada então como a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a Cristandade.
Por assim dizer, responsável pela unidade de toda a Europa, que comungava da mesma fé.
Essa linha vai do começo do século IX até ao fim do século XVI, ou seja, até ao fim da Idade Média.

Esse pensamento cristão deve o seu nome às artes ensinadas na altura pelos académicos (escolásticos) nas escolas medievais.

Essas artes podiam ser divididas em:
1)- Trivium (gramática, retórica e dialéctica) e,
2)- Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música).
A escolástica resulta essencialmente do aprofundar da filosofia.3
A filosofia, que até então possuía traços marcadamente clássicos e helenísticos, sofreu influências da cultura judaica e da cristã a partir do século V, quando pensadores cristãos perceberam a necessidade de aprofundar uma fé que estava amadurecendo, em uma tentativa de harmonizá-la com as exigências do pensamento filosófico.
Alguns temas que antes não faziam parte do universo do pensamento grego, tais como Providência e Revelação Divina e Criação a partir do nada, passaram a fazer parte de temáticas filosóficas.
A escolástica possui uma constante de natureza neoplatônica, que conciliava elementos da filosofia de Platão com valores de ordem espiritual, reinterpretadas pelo Ocidente cristão. E mesmo quando Tomás de Aquino introduz elementos da filosofia de Aristóteles no pensamento escolástico, essa constante neoplatônica ainda é presente.4
Basicamente, a questão-chave que vai atravessar todo o pensamento escolástico é a harmonização de duas esferas: a fé e a razão:
1)- O pensamento de Agostinho, mais conservador, defende uma subordinação maior da razão em relação à fé, por crer que esta venha restaurar a condição decaída da razão humana.
2)- Enquanto que a linha de Tomás de Aquino defende uma certa autonomia da razão na obtenção de respostas, por força da inovação do aristotelismo, apesar de em nenhum momento negar tal subordinação da razão à fé.5

Para a escolástica, algumas fontes eram fundamentais no aprofundamento de sua reflexão, por exemplo os filósofos antigos, a Bíblia e os Padres da Igreja, autores dos primeiros séculos cristãos que tinham sobre si a autoridade de fé e de santidade.
II – Principais representantes do pensamento escolástico:


Os maiores representantes do pensamento escolástico são os dois pensadores citados acima, que estão separados pelo tempo e pelo espaço:
Agostinho de Hipona, nascido no norte da África no fim do século IV, e Tomás de Aquino, nascido na Itália do século XIII.
Embora seja arriscado dizer que sejam as únicas referências relevantes do período medieval, ambos conseguiram sintetizar questões discutidas através de todo o período:
Agostinho enquanto mestre de opinião relevante e autoridade moral, defendia a busca de explicações racionais que justificassem a fé, e Tomás de Aquino pelo uso de caminhos mais eficazes na obtenção de respostas até então em aberto.
Outros nomes da escolástica são:
Anselmo de Cantuária, Alberto Magno, Robert Grosseteste, Roger Bacon, Boaventura de Bagnoreggio, Pedro Abelardo, Bernardo de Claraval, João Escoto Erígena, John Duns Scot, Jean Buridan, Nicole Oresme.
III – Neoescolástica:
A neoescolástica é a revitalização e o desenvolvimento da filosofia escolástica da Idade Média que ocorreram a partir da segunda metade do século XIX.
Não é só a ressurreição de uma filosofia há muito tempo extinta, mas sim uma regeneração da philosophia perennis ou metafísica, que surgiu na Grécia Antiga e que nunca deixou de existir.
Às vezes, tem sido chamada de “o tomismo neoescolástico”, em parte porque foi Tomás de Aquino que deu forma final à escolástica no século XIII, em parte por causa da ideia de que só o tomismo poderia infundir vitalidade na escolástica do século XX.
Na primeira metade do século XX, importantes escolas neotomistas foram criadas, entre as quais estão as de:
1)-  Leuven (Bélgica),
2)- Laval (Canadá) e,
3)- de Washington (EUA).
Também é comum usar o termo “neoescolástica” para qualificar a escola do século XVI, em Salamanca (Francisco de Vitória, Domingo de Soto, Luis de Molina, ´Francisco Suárez etc.), uma corrente de pensamento de grande influência na história da teologia, filosofia, direito e economia e crucial para a compreensão da cultura espanhola posterior.
É necessário distinguir dois sentidos do termo “neoescolasticismo”:
A tentativa de reviver a tradição da escolástica medieval e seus conceitos fundamentais e, por outro lado, uma escola de pensamento ligada à Igreja Católica que se propunha a realização de uma nova síntese de fé cristã e de racionalidade moderna. A esse respeito, o Papa Leão XIII, em sua encíclica Aeterni Patris (1879), afirmou que a doutrina tomista, desenvolvida por Tomás de Aquino, deve ser a base de toda a filosofia que é considerada cristã.
Com ela, o Papa deu o apoio incondicional da Igreja Católica para o tomismo, promovendo o aparecimento de neoescolástica. Essa encíclica foi parte do movimento realizado pelo Vaticano que abordou os problemas de seu tempo em muitas áreas.
Foi colocada, então, a necessidade de construir uma nova filosofia cristã, pretendendo-se retornar à velha filosofia escolástica. Assim, a neoescolástica tentou resgatar o valor da objetividade contra o relativismo, destacando o valor do realismo contra o idealismo e promover o valor do personalismo.
IV – Corrente tradicional:
Os representantes desse movimento não pretenderam enriquecer a doutrina tomista, mas mostrar aquilo que é eternamente durável em metafísica. Assim, adotaram uma atitude defensiva e desafiante contra os “erros” da modernidade, contra a qual o tomismo ergueu um infalível bastião.
A maioria das obras desse fluxo são escritas em latim, como é o caso de:
1- Tommaso Maria Zigliara (1833-1893), autor italiano de Summa philosophica, em 3 volumes. O Papa Leão XIII nomeou-o cardeal e presidente da Academy of St. Thomas;
2- Albert Farges, autor de Estudos filosóficos, em 9 volumes e um curso de filosofia, adotado como livro-texto para muitos seminários;
3- Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964), autor de Uma síntese tomista e Deus;
4- O cardeal Louis Billot, cujo retorno ao St. Thomas manifestou a sua independência em face de Francisco Suárez (que tem grande influência sobre a neoescolástica alemã).
V – Corrente progressista:
Essa corrente não se contenta em restaurar as antigas doutrinas tomistas, mas tenta incorporar todo o lado bom do pensamento moderno.
Visa a enriquecer o tomismo, mostrando-se severa contra os “erros” do pensamento moderno. A figura central dessa corrente é o cardeal Désiré Félicien-François-Joseph Mercier. Muitas escolas afirmam pertencer a essa tendência progressiva.
VI – Escolas:
A escola histórica do tomismo foi aplicada ao estudo da filosofia medieval e contribuiu para redescobri-la usando os métodos de crítica moderna:
1- Na Bélgica: Maurice De Wulf;
2- Na Alemanha: Martin Grabmann;
3- Na França: Pierre Mandonnet, fundador da Bibliothèque thomiste, Étienne Gilson e Marie-Dominique Chenu;
4- Em Espanha: Miguel Asin Palacios, autor de Estudos comparativos de espiritualidades cristãs e muçulmanas.
VI – Escolas e autores da Escolástica Progressista:
A escola tem como objetivo enriquecer e renovar o tomismo progressiva. O pensamento escolástico se expandiu em todas as áreas, da política à metafísica, da epistemologia à moral.
O principal representante francês dessa tendência, assim como Antonin Sertillanges, é Jacques Maritain.

Ele também destaca o cardeal Joseph Désiré-Félicien-François Mercier, fundador do Instituto Superior de Filosofia da Universidade Católica de Leuven, onde ensinou Joseph Maréchal.
Finalmente, a neoescolástica italiana da Escola de Milão, fundada por Agostino Gemelli, fundador da Revue de filosofia escolástica.
Enfrentaram o positivismo científico e o idealismo hegeliano de Benedetto Croce e Giovanni Gentile. Atualmente, o trabalho dessa escola é centrado em torno das ligações entre tomismo e as tendências atuais, como a fenomenologia, particularmente a obra de Emmanuel Falque.
VII – Crítica
A escola crítica tende a enfatizar os pontos fracos do tomismo e considera algumas das 24 teses como meramente prováveis.
Por exemplo, Peter Descoqs criticou o hilemorfismo e discutiu a distinção entre essência e existência.
VIII – Elementos tradicionais
A neoescolástica procura restaurar as doutrinas orgânicas fundamentais consagradas na escolástica do século XIII. Ela argumenta que a filosofia não varia de acordo com cada fase da história e que, se os grandes pensadores medievais (Tomás de Aquino, Boaventura e John Duns Scotus Fidanza) conseguiram construir um sistema filosófico sólido sobre as informações fornecidas pelos gregos, especialmente Aristóteles, deve ser possível elevar o espírito da verdade que contém a especulação da Idade Média.
IX- Visões externas:
1)- Émile Boutroux pensou que o sistema aristotélico poderia servir como uma compensação ao kantismo.
2)- Paulsen e Rudolf Christoph Friedrich declararam a neoescolástica como o rival do kantismo e afirmaram o conflito entre eles como o “choque de dois mundos”.
3)- Adolf von Harnack, Seeberg e outros argumentaram contra subestimar o valor da doutrina escolástica.
4)- No final do século XIX, a neoescolástica ganhou terreno entre os católicos contra outros pontos de vista, como o tradicionalismo, o ontologismo, o dualismo de Anton Günther e o pensamento cartesiano. Foi aprovada em quatro congressos católicos: Paris (1891), Bruxelas (1895), Freiburg (1897) e Munique (1900).
Referências
↑ Steven P. Marone, “Medieval philosophy in context” in A. S. McGrade, ed., The Cambridge Companion to Medieval Philosophy (Cambridge: Cambridge University Press, 2003); Jean Leclerq, The Love of Learning and the Desire for God (New York: Fordham University Press, 1970) esp. 89; 238ff.
↑ SPINELLI, Miguel. Herança Grega dos Filósofos Medievais São Paulo: Hucitec, 2013.
↑ Escolástica e Idade Média. UOL, página acessada em 30 de abril de 2013.
↑ Síntese da escolástica. Consciência.org, página acessada em 30 de abril de 2013.
↑ Filosofia medieval. Sua Pesquisa, página acessada em 30 de abril de 2013.

Fonte: Wikipedia

Íntegra do “forte” discurso do Papa Francisco aos Bispos do CELAM durante a JMJ 2013



(Viagem Apostólica ao Brasil – JMJ)
Discurso do Papa Francisco

Encontro com os dirigentes do CELAM

Sábado, 28 de julho de 2013

I – Introdução
Agradeço ao Senhor por esta oportunidade de poder falar com vocês, Irmãos Bispos responsáveis do CELAM no quadriênio 2011-2015.
Há 57 anos que o CELAM serve as 22 Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe, colaborando solidária e subsidiariamente para promover, incentivar e dinamizar a colegialidade episcopal e a comunhão entre as Igrejas da Região e seus Pastores.
Como vocês, também eu sou testemunha do forte impulso do Espírito na V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida no mês de maio de 2007, que continua animando os trabalhos do CELAM para a anelada renovação das Igrejas particulares.

Em boa parte delas, essa renovação já está em andamento. Gostaria de centrar esta conversação no patrimônio herdado daquele encontro fraterno e que todos batizamos como Missão Continental.
II –  Características peculiares de Aparecida
Existem quatro características típicas da referida V Conferência. Constituem como que quatro colunas do desenvolvimento de Aparecida que lhe dão a sua originalidade.
1) Início sem documento
Medelín, Puebla e Santo Domingo começaram os seus trabalhos com um caminho preparatório que culminou em uma espécie de Instrumentum laboris, com base no qual se desenrolou a discussão, a reflexão e a aprovação do documento final. Em vez disso, Aparecida promoveu a participação das Igrejas particulares como caminho de preparação que culminou em um documento de síntese. Este documento, embora tenha sido ponto de referência durante a V Conferência Geral, não foi assumido como documento de partida. O trabalho inicial foi pôr em comum as preocupações dos Pastores perante a mudança de época e a necessidade de recuperar a vida de discípulo e missionário com que Cristo fundou a Igreja.
2) Ambiente de oração com o Povo de Deus
É importante lembrar o ambiente de oração gerado pela partilha diária da Eucaristia e de outros momentos litúrgicos, tendo sido sempre acompanhados pelo Povo de Deus. Além disso, realizando-se os trabalhos na cripta do Santuário, a “música de fundo” que os acompanhava era constituída pelos cânticos e as orações dos fiéis.
3) Documento que se prolonga em compromisso, com a Missão Continental
Neste contexto de oração e vivência de fé, surgiu o desejo de um novo Pentecostes para a Igreja e o compromisso da Missão Continental. Aparecida não termina com um documento, mas prolonga-se na Missão Continental.
4) A presença de Nossa Senhora, Mãe da América
É a primeira Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe que se realiza em um Santuário mariano.
III – Dimensões da Missão Continental
A Missão Continental está projetada em duas dimensões: programática e paradigmática. A missão programática, como o próprio nome indica, consiste na realização de atos de índole missionária. A missão paradigmática, por sua vez, implica colocar em chave missionária a atividade habitual das Igrejas particulares. Em consequência disso, evidentemente, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. A “mudança de estruturas” (de caducas a novas) não é fruto de um estudo de organização do organograma funcional eclesiástico, de que resultaria uma reorganização estática, mas é consequência da dinâmica da missão. O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade. Daqui a importância da missão paradigmática.
A Missão Continental, tanto programática como paradigmática, exige gerar a consciência de uma Igreja que se organiza para servir a todos os batizados e homens de boa vontade. O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos outros. Portanto, a Missão Continental implica pertença eclesial.
Uma posição como esta, que começa pelo discipulado missionário e implica entender a identidade do cristão como pertença eclesial, pede que explicitemos quais são os desafios vigentes da missionariedade discipular. Me limito a assinalar dois: a renovação interna da Igreja e o diálogo com o mundo atual.
III – Renovação interna da Igreja
Aparecida propôs como necessária a Conversão Pastoral. Esta conversão implica acreditar na Boa Nova, acreditar em Jesus Cristo portador do Reino de Deus, em sua irrupção no mundo, em sua presença vitoriosa sobre o mal; acreditar na assistência e guia do Espírito Santo; acreditar na Igreja, Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.
Neste sentido, é necessário que nos interroguemos, como Pastores, sobre o andamento das Igrejas a que presidimos.
Estas perguntas servem de guia para examinar o estado das dioceses quanto à adoção do espírito de Aparecida, e são perguntas que é conveniente pôr-nos, muitas vezes, como exame de consciência:
1. Procuramos que o nosso trabalho e o de nossos presbíteros seja mais pastoral que administrativo? Quem é o principal beneficiário do trabalho eclesial, a Igreja como organização ou o Povo de Deus na sua totalidade?
2. Superamos a tentação de tratar de forma reativa os problemas complexos que surgem? Criamos um hábito proativo? Promovemos espaços e ocasiões para manifestar a misericórdia de Deus? Estamos conscientes da responsabilidade de repensar as atitudes pastorais e o funcionamento das estruturas eclesiais, buscando o bem dos fiéis e da sociedade?
3. Na prática, fazemos os fiéis leigos participantes da Missão? Oferecemos a Palavra de Deus e os Sacramentos com consciência e convicção claras de que o Espírito se manifesta neles?
4. Temos como critério habitual o discernimento pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os Conselhos paroquiais de Pastoral e de Assuntos Econômicos são espaços reais para a participação laical na consulta, organização e planejamento pastoral? O bom funcionamento dos Conselhos é determinante. Acho que estamos muito atrasados nisso.
5. Nós, Pastores Bispos e Presbíteros, temos consciência e convicção da missão dos fiéis e lhes damos a liberdade para irem discernindo, de acordo com o seu processo de discípulos, a missão que o Senhor lhes confia? Apoiamo-los e acompanhamos, superando qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão? Estamos sempre abertos para nos deixarmos interpelar pela busca do bem da Igreja e da sua Missão no mundo?
6. Os agentes de pastoral e os fiéis em geral sentem-se parte da Igreja, identificam-se com ela e aproximam-na dos batizados indiferentes e afastados?
Como se pode ver, aqui estão em jogo atitudes. A Conversão Pastoral diz respeito, principalmente, às atitudes e a uma reforma de vida. Uma mudança de atitudes é necessariamente dinâmica: “entra em processo” e só é possível moderá-lo acompanhando-o e discernindo-o. É importante ter sempre presente que a bússola, para não se perder nesse caminho, é a identidade católica concebida como pertença eclesial.
IV – Diálogo com o mundo atual
Faz-nos bem lembrar estas palavras do Concílio Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo (cf. GS, 1).”Aqui reside o fundamento do diálogo com o mundo atual.
A resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja.
Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram “diferentes cidades”. Se continuarmos apenas com os parâmetros da “cultura de sempre”, fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando a força do Espírito Santo. Deus está em toda a parte: há que saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma dessa cultura; e cada realidade, cada idioma tem um ritmo diferente.
4. Algumas tentações contra o discipulado missionário
A opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações. É importante saber por onde entra o espírito mau, para nos ajudar no discernimento. Não se trata de sair à caça de demônios, mas simplesmente de lucidez e prudência evangélicas. Limito-me a mencionar algumas atitudes que configuram uma Igreja “tentada”. Trata-se de conhecer determinadas propostas atuais que podem mimetizar-se em a dinâmica do discipulado missionário e deter, até fazê-lo fracassar, o processo de Conversão Pastoral.
1.A ideologização da mensagem evangélica. É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do Evangelho e fora da Igreja. Um exemplo: a dado momento, Aparecida sofreu essa tentação sob a forma de assepsia. Foi usado, e está bem, o método de “ver, julgar, agir” (cf. n.º 19). A tentação se encontraria em optar por um “ver” totalmente asséptico, um “ver” neutro, o que não é viável. O ver está sempre condicionado pelo olhar. Não há uma hermenêutica asséptica.
Então a pergunta era: Com que olhar vamos ver a realidade? Aparecida respondeu: Com o olhar de discípulo.
Assim se entendem os números 20 a 32. Existem outras maneiras de ideologização da mensagem e, atualmente, aparecem na América Latina e no Caribe propostas desta índole.
Menciono apenas algumas:
a) O reducionismo socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até à categorização marxista.

b) A ideologização psicológica. Trata-se de uma hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o “encontro com Jesus Cristo” e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento. Costuma verificar-se principalmente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais, etc. Acaba por resultar numa posição imanente auto-referencial. Não tem sabor de transcendência, nem portanto de missionariedade.
c) A proposta gnóstica. Muito ligada à tentação anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada, que acaba por desembocar em posições pastorais de “quaestiones disputatae”. Foi o primeiro desvio da comunidade primitiva e reaparece, ao longo da história da Igreja, em edições corrigidas e renovadas. Vulgarmente são denominados “católicos iluminados” (por serem atualmente herdeiros do Iluminismo).
d) A proposta pelagiana. Aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Perante os males da Igreja, busca-se uma solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade significativa. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a “segurança” doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura “recuperar” o passado perdido.
2. O funcionalismo. A sua ação na Igreja é paralisante. Mais do que com a rota, se entusiasma com o “roteiro”. A concepção funcionalista não tolera o mistério, aposta na eficácia. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale é o resultado palpável e as estatísticas. A partir disso, chega-se a todas as modalidades empresariais de Igreja. Constitui uma espécie de “teologia da prosperidade” no organograma da pastoral.
3. O clericalismo é também uma tentação muito atual na América Latina. Curiosamente, na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade viciosa: o sacerdote clericaliza e o leigo lhe pede por favor que o clericalize, porque, no fundo, lhe resulta mais cômodo. O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina: ou não cresce (a maioria), ou se abriga sob coberturas de ideologizações como as indicadas, ou ainda em pertenças parciais e limitadas. Em nossas terras, existe uma forma de liberdade laical através de experiências de povo: o católico como povo. Aqui vê-se uma maior autonomia, geralmente sadia, que se expressa fundamentalmente na piedade popular. O capítulo de Aparecida sobre a piedade popular descreve, em profundidade, essa dimensão. A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais está na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical.
Poderíamos continuar descrevendo outras tentações contra o discipulado missionário, mas acho que estas são as mais importantes e com maior força neste momento da América Latina e do Caribe.
5. Algumas orientações eclesiológicas
1. O discipulado-missionário que Aparecida propôs às Igrejas da América Latina e do Caribe é o caminho que Deus quer para “hoje”. Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no “hoje”. A sua presença, no passado, se nos oferece como “memória” da saga de salvação realizada quer em seu povo quer em cada um de nós; no futuro, se nos oferece como “promessa” e esperança. No passado, Deus esteve lá e deixou sua marca: a memória nos ajuda encontrá-lo; no futuro, é apenas promessa… e não está nos mil e um “futuríveis”. O “hoje” é o que mais se parece com a eternidade; mais ainda: o “hoje” é uma centelha de eternidade. No “hoje”, se joga a vida eterna.
O discipulado missionário é vocação: chamada e convite. Acontece em um “hoje”, mas “em tensão”. Não existe o discipulado missionário estático. O discípulo missionário não pode possuir-se a si mesmo; a sua imanência está em tensão para a transcendência do discipulado e para a transcendência da missão. Não admite a auto-referencialidade: ou refere-se a Jesus Cristo ou refere-se às pessoas a quem deve levar o anúncio dele. Sujeito que se transcende. Sujeito projetado para o encontro: o encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e o encontro com os homens que esperam o anúncio.
Por isso, gosto de dizer que a posição do discípulo missionário não é uma posição de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias… incluindo as da eternidade no encontro com Jesus Cristo. No anúncio evangélico, falar de “periferias existenciais” descentraliza e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo, que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais.
2. A Igreja é instituição, mas, quando se erige em “centro”, se funcionaliza e, pouco a pouco, se transforma em uma ONG. Então, a Igreja pretende ter luz própria e deixa de ser aquele “mysterium lunae” de que nos falavam os Santos Padres. Torna-se cada vez mais auto-referencial, e se enfraquece a sua necessidade de ser missionária. De “Instituição” se transforma em “Obra”. Deixa de ser Esposa, para acabar sendo Administradora; de Servidora se transforma em “Controladora”. Aparecida quer uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, facilitadora da fé e não controladora da fé.
3. Em Aparecida, verificam-se de forma relevante duas categorias pastorais, que surgem da própria originalidade do Evangelho e nos podem também servir de orientação para avaliar o modo como vivemos eclesialmente o discipulado missionário: a proximidade e o encontro. Nenhuma das duas é nova, antes configuram a maneira como Deus se revelou na história. É o “Deus próximo” do seu povo, proximidade que chega ao máximo quando Ele encarna. É o Deus que sai ao encontro do seu povo. Na América Latina e no Caribe, existem pastorais “distantes”, pastorais disciplinares que privilegiam os princípios, as condutas, os procedimentos organizacionais… obviamente sem proximidade, sem ternura, nem carinho. Ignora-se a “revolução da ternura”, que provocou a encarnação do Verbo. Há pastorais posicionadas com tal dose de distância que são incapazes de conseguir o encontro: encontro com Jesus Cristo, encontro com os irmãos.Este tipo de pastoral pode, no máximo, prometer uma dimensão de proselitismo, mas nunca chegam a conseguir inserção nem pertença eclesial. A proximidade cria comunhão e pertença, dá lugar ao encontro. A proximidade toma forma de diálogo e cria uma cultura do encontro. Uma pedra de toque para aferir a proximidade e a capacidade de encontro de uma pastoral é a homilia. Como são as nossas homilias? Estão próximas do exemplo de Nosso Senhor, que “falava como quem tem autoridade”, ou são meramente prescritivas, distantes, abstratas?
4. Quem guia a pastoral, a Missão Continental (seja programática seja paradigmática), é o Bispo. Ele deve guiar, que não é o mesmo que comandar. Além de assinalar as grandes figuras do episcopado latino-americano que todos nós conhecemos, gostaria de acrescentar aqui algumas linhas sobre o perfil do Bispo, que já disse aos Núncios na reunião que tivemos em Roma. Os Bispos devem ser Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham “psicologia de príncipes”. Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra. Homens capazes de vigiar sobre o rebanho que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido: vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas sobretudo para cuidar da esperança: que haja sol e luz nos corações. Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em seu povo. E o lugar onde o Bispo pode estar com o seu povo é triplo: ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se desgarre mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o seu olfato para encontrar novos caminhos.
Não quero juntar mais detalhes sobre a pessoa do Bispo, mas simplesmente acrescentar, incluindo-me a mim mesmo nesta afirmação, que estamos um pouco atrasados no que a Conversão Pastoral indica. Convém que nos ajudemos um pouco mais a dar os passos que o Senhor quer que cumpramos neste “hoje” da América Latina e do Caribe. E seria bom começar por aqui.
Agradeço-lhes a paciência de me ouvirem. Desculpem a desordem do discurso e lhes peço, por favor, para tomarmos a sério a nossa vocação de servidores do povo santo e fiel de Deus, porque é nisso que se exerce e mostra a autoridade: na capacidade de serviço.
Muito obrigado!

Leonardo Boff refaz suas contas com a história (e erra): “O magistério de Bergoglio não reabilita a Teologia da Libertação: ele é muito mais revolucionário”

Por Alfonso M. Bruno
O ex-frade franciscano Leonardo Boff, depois de pendurar a batina por causa da condenação das suas teorias pela Congregação da Doutrina da Fé (evidentemente, a regra do centralismo é aceita nos partidos comunistas, mas não na Igreja…), reencontra a honra de seus sempre buscados holofotes e cinco minutos de glória,das manchetes europeias em entrevista concedida a Andrea Tornielli para o jornal La Stampa, de Turim, em 25 de julho.
O ex-religioso brasileiro retorna do esquecimento em que tinha caído depois que saíram de moda tanto a atração pelos pensamentos exóticos de matriz terceiro-mundista quanto a vigência da ortodoxia marxista-leninista, que, após a queda do muro de Berlim, sobrevive apenas na serra tropical de Cuba.

Leonardo Boff retorna fazendo elogios a ninguém menos que o papa!!!???
É uma alegria vê-lo reconciliado com a Igreja, mas parece pouco honesta, do ponto de vista intelectual, a sua tentativa desajeitada de contrabandear alguns aspectos do magistério de Bergoglio para as vizinhanças da teologia da libertação.
O erro do ex-frade, que, dada a sua formação acadêmica, dificilmente foi cometido com boa fé, pressupõe a remoção de um elemento central do ensinamento do papa, que consiste no constante apelo à responsabilidade ética individual de cada pessoa.
Isto não significa, é claro, negar a existência e a gravidade do pecado social, que o bispo de Roma está fustigando com grande vigor (embora, para sermos honestos, todos os seus antecessores  jamais deixaram de fazê-lo também).
A linha divisória entre Boff e Bergoglio é a pretensão, compartilhada por todos os “teólogos da libertação” é:
“de considerar irrelevante o pecado individual, justificando-o com a injustiça das condições históricas em que ele foi cometido”.
O atual papa se posiciona em uma perspectiva exatamente oposta:
ao convidar os jovens a se rebelarem contra a injustiça, ele o faz a partir de um exame da consciência de cada indivíduo.
O pecado social, portanto, se qualifica como o resultado de inúmeras culpas individuais, nas quais incorre qualquer um que se recusa a assumir as suas responsabilidades para com a sociedade humana.
De acordo com Boff e com os seus colegas, deve-se, em vez disto, prosseguir na direção oposta:
a teologia moral se limitaria à análise das condições sociais que, na opinião deles, coagem sempre e necessariamente as escolhas pessoais.
Se por um lado eles podem não aceitar o marxismo na sua pretensão de reduzir toda a realidade à dimensão material, eles acabam, por outro lado, aderindo às suas consequências, ao acreditarem que o bem consiste na mudança revolucionária da estrutura econômica e o mal na sua preservação.
Seria moralmente correto, desta forma, somente o compromisso revolucionário de cada um, independentemente do seu comportamento individual: acaba-se caindo, assim, num maquiavelismo barato.
A negação da esfera espiritual, uma negação que é própria do marxismo, determina sempre a abolição de toda distinção moral.
Diante disto, as religiões, todas as religiões, acomunadas no desprezo pelo chamado “ópio do povo”, concordaram em restabelecer a verdade, reconduzindo para dentro do homem o conflito em que a humanidade se debate; ou seja, reconduzindo-o para a sua consciência.
Com esta base, e não com base na cansada repetição das fórmulas marxistas que Leonardo Boff e Fidel Castro ainda intercambiam nos seus diálogos senis, é que podemos realizar a revolução que o mundo oprimido pela injustiça está esperando.
Bergoglio convidou os jovens de todo o mundo, no Rio de Janeiro, a se revoltarem contra a injustiça: este apelo, sem tirar nada do seu significado espiritual, produzirá certamente o retorno ao compromisso de uma geração que parecia irremediavelmente afastada dele.
Em apenas um ponto Boff tem razão quando diz que:
“A devoção popular a que o papa se vincula não é “pietismo”, mas “preserva a identidade do povo” contra a homologação forçada a que somos condenados pela especulação.Esta, juntamente com a mobilização das consciências, constitui o outro recurso de quem não aceita a injustiça do atual status quo: a libertação dos povos passa pela plena reapropriação da sua identidade; quem não se reconhece numa comunidade não pode exercitar a auto-determinação.”
Mesmo aqui, no entanto, não se pode esquecer que o marxismo foi uma tentativa de homologação forçada, que se manifestou também, mas não apenas, na perseguição antirreligiosa.
As palavras de Boff ainda representam a evidência do poder de convencimento próprio do magistério de Bergoglio.
Longa vida, pois, ao bispo de Roma!!!
Fonte: Zenit